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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Relato: Endurance Challenge Agulhas Negras 21km

O Endurance Challenge Agulhas Negras foi, sem sombra de dúvidas, a prova que gerou o maior hype-burburinho-expectativa no mercado trail nacional desde seu lançamento, em fins de 2014.

Antes até de divulgarem os percursos, altimetria e mesmo qual seria exatamente a data da prova (pois a divulgação dizia apenas que a prova ocorreria entre 21 e 24 de maio) as vagas já estavam praticamente esgotadas.

Foi o típico caso de "nunca te vi, mas sempre te amei", ou ainda "como vivi tantos anos sem correr essa prova que eu ainda nem corri e nem sei se vai prestar? EU TENHO QUE FAZER PARTE DISSO!!!". É, essa era a atmosfera do evento.



Cris e eu nos inscrevemos para os 21km sem titubear, pois realmente não conseguiríamos ficar fora de uma prova que prometia ter como cenário um dos lugares que mais gostamos no Brasil, a região do Parque Nacional do Itatiaia.

Depois de algum tempo foi divulgado que das 4 distâncias da prova (11km, 21km, 50km e 80km) apenas os 80km iriam passar pelo Parque do Itatiaia, sendo que os demais percursos seriam nas trilhas do Parque Estadual da Pedra Selada (no final das contas o ICMBio revogou a autorização concedida ao evento e nem os 80km puderam passar por lá...) ¬¬

Ok, pensamos, ainda não conhecemos esse Parque da Pedra Selada. Tá aí uma boa oportunidade de explorar novas trilhas.

O tempo foi passando e a organização da prova foi surpreendendo a todos com o seu nível de detalhes e quantidade de informação repassada aos atletas.
Faltando poucas semanas para a prova foi publicado um guia de prova para cada percurso, descrevendo com riqueza de detalhes como seria o percurso (ex.: largada em paralelepípedo por 500m, curva à esquerda em leve aclive, estrada de asfalto por 600m, curva à direita para o Vale da Grama, estrada de chão por km...).

Course Guide - 21km

Nunca havíamos visto algo assim. Geralmente, o máximo que disponibilizam aos atletas é o gráfico altimétrico, mas dessa vez dava para saber até onde era trilha, onde era estrada, onde ia ter só água e banana, onde ia ter água, banana, paçoca e batata chips, e assim por diante.

Altimetria 21,5km
Uau, esses caras sabem organizar uma prova, hein? Isso sim é organização! 

Por outro lado, com esse grande volume de informação veio certo desapontamento. Deu pra ver que dos 21,5km pelo menos 10km seriam em estrada de chão... nhé, ir tão longe para correr metade do tempo em estrada de chão!

Mas tudo bem, afinal, ainda tinha os outros 50% do percurso que poderiam nos surpreender e reservar belezas e paisagens de tirar o fôlego. Bora tentar encarar a vida como um "copo meio cheio" ao invés de meio vazio.

Ainda assim, fomos para prova com a expectativa relativamente baixa. O que viesse seria lucro.

E assim fomos. Na sexta à noite deixamos nossa filhota de 4 patas no hotelzinho, caímos na estrada, chegamos à Visconde de Mauá de madrugada, separamos nossas coisas, tomamos banho e fomos dormir. No dia seguinte teríamos que acordar algumas horas antes da prova para podermos retirar os números de peito e chips... pois é, apesar de terem facilitado a retirada dos kits durante a semana que antecedeu a prova, deixaram para distribuir números e chips apenas no dia da prova... para quê facilitar, né?

Piratas do Caribe em busca do tesouro do Visconde

Enfim, retiramos o chip e numeral antes da largada, de forma simples e rápida, e fomos deixar nossas coisas no guarda-volumes. A arena montada para o evento era bem grande e organizada. Aproveitamos para confraternizar com o pessoal da JVM e dar um abraço no Zé, que não poderia correr por conta de uma lesão.



Alinhamos para a largada lá no fundo, quase com a bunda na grade (rs) e então foi dada a largada. Levou mais de 30s da hora que soou a largada até finalmente conseguir passar pelo pórtico, mas bora lá! Eu que escolhi largar no fundo, né.

Como o percurso teria 3 postos de hidratação e abastecimento (Aid Station), decidi ser fanfarrão e correr sem mochila, usando só uma handheld de 500ml e contando com as Aid Stations para completar o 'tanque'.

Larguei sem pressa, no passo do elefantinho e quando saímos do paralelepípedo e começamos a leve subida pelo asfalto resolvi começar a ultrapassar um povo.

Largando no passo do elefantinho

Ainda assim, estava sem nenhuma urgência, pois já sabia que não ia ter nenhum single track nos próximos 6km para causar um 'efeito funil' na galera.

Saímos do asfalto e começamos uma leve descida em estrada de terra beirando um pasto (as vaquinhas ficaram loucas quando viram toda aquela gente correndo e começaram a correr também! rsrs). Na sequência, essa descida virou subida e assim continuou por mais uns 9km, com uma ou outra descidinha curta no meio do caminho.




Parei rapidinho na primeira Aid Station, cumprimentei os voluntários, completei minha garrafinha e parti.

Onde está Wally? (no caso, a Cris)

A estrada de terra virou estrada de grama, depois virou "trilha larga" (praticamente uma estrada gramada, mas com largura insuficiente para um carro) e voltou a ser estrada de terra, sempre bem corrível. Passei a marca dos 5km com menos de 30min de prova, o que mostra que a inclinação do terreno era beeeeeemmm tranquila.



No guia de prova divulgado pela organização eles fizeram um pace chart informando que a previsão era de que o primeiro pelotão iria desenvolver um ritmo médio de 5:12/km (concluindo a prova em 1h51), o pelotão do meio faria a média de 8min/km (2h51 de prova) e o último corredor deveria concluir o percurso em 4h, com ritmo médio de 11:53 min/km.



Com base nessa informação, pretendia controlar meu ritmo para ficar abaixo de 8min/km, e tentar fechar a prova sub-2h50.




Consegui manter o ritmo pretendido (abaixo de 8min/km) até o km 8, onde acabei parando para andar enquanto devorava uma papinha de maçã... terminado o "banquete", retomei o trotinho ladeira acima e fui recuperando o tempo perdido.

A tal da "trilha larga"



No km 9 vi que meu GPS e a placa de distância da prova não estavam batendo, mas a diferença era relativamente pequena - apenas uns 500m. A Aid Station que deveria estar no km 10 apareceu depois do décimo primeiro km, mas sem stress. Parei ali, completei a garrafa d'água, peguei uma paçoca, tirei uma foto dos voluntários e parti.

Obrigado pelo apoio, agora sorriam para a foto!!!
No km 12 a diferença entre GPS e placas tinha aumentado para uns 800m, mas tudo bem, às vezes o GPS perde precisão, acontece. Dei uma conferida no gráfico da altimetria impresso no número de peito e comecei a me preparar psicologicamente para encarar os 5km de descida que viriam a partir do próximo km. O gráfico mostrava que o primeiro km em declive seria bem bruto, perdendo aproximadamente 200m de elevação duma vez só.



Pela inclinação do gráfico, tudo indicava que seria uma descida em trilha. Qual não foi minha surpresa ao perceber que os próximos 5km seriam descendo uma estrada de terra novamente... Ok, perde-se um pouco a graça e beleza do percurso mas eu ganho em vida útil para os joelhos, né, então segue o jogo.

Na metade do 13ºkm encontrei o Fernando Nazário (Campeão das brutíssimas Ultra Trail Torres del Paine 67km e Ultra Fiord 114km - aliás, vale MUITO a pena ver esse vídeo), gritei o nome dele, ele levantou a mão, me deu um high five e falou algo como "agora são 5km só descendo,vai com tudo". rs
Recebi uma boa dose de energia nesse high five. Coincidência ou não, foi meu km mais rápido em toda a prova. rs

Após a prova fui até agradecer a força e tirar uma selfie com o monstro das Ultra Trails rsrs
Os 5km descendo a estrada de terra foram um tanto quanto sem graça, e não tem muito o que relatar sobre eles. Só sei que tentei não me empolgar muito para não agredir demais minhas pernas então fiz o possível para manter um ritmo confortável, próximo a 5min/km. Mais rápido que isso e eu sei que teria problemas com joelhos e canelas...

A descida finalmente terminou, o terreno ficou plano e então aconteceu algo que conseguiu ser ainda mais chato do que 5km em estrada de terra: ~1,5km em estrada de asfalto sinuosa e sem acostamento em meio aos carros, unindo-se ao percurso dos 11km (que havia largado 1h após a largada dos 21km).

Quando ultrapassava alguém dos 11km fazia questão de dizer alguma frase de incentivo ou pedir para que sorrissem para eu bater uma foto.



Em seguida surgiu o terceiro e último posto de apoio, previsto para o km 15, mas que estava no km 17 do meu GPS. Ainda tinha metade da garrafa d'água e restavam apenas 4km para o fim da prova, então resolvi passar direto pelo posto.

Saindo do asfalto, tomamos uma pequena rua em terra e encontramos a primeira travessia do Rio Preto, que separa os estados de RJ e MG.
A staff ficava repetindo a cada 3s para todo mundo usar a corda para atravessar o rio, para ninguém correr riscos desnecessários. Ainda assim, uma moça que estava correndo os 11km (e que estava em estado semicomatoso, caminhando, quando a ultrapassei alguns metros antes) resolveu que aquela era a hora da consagração, a hora da virada, a hora de acabar com a concorrência.


Basicamente, ela achou que poderia ultrapassar todas as 20 pessoas que estavam na fila da conga segurando na corda e atravessando o rio tentando não quebrar a perna nas pedras escorregadias.



Claro que esse ser iluminado tropeçou numa pedra bem na hora que estava tentando me passar e então resolveu que seria mesmo prudente respeitar a orientação da staff e agarrar a corda. Mesmo que isso significasse atirar seu corpo contra o meu com toda a força.
Nesse momento eu já contava com mais de 20km nas pernas, 2h04 de prova, e um staff havia acabado de gritar que agora só faltava percorrer 4km para o final, elevando a distância total para 24km, sendo que minha água estava acabando. Eu fiquei puto, bem puto.





Para aumentar minha felicidade com esse ser especial, assim que acabou a travessia do rio e se iniciou uma trilha enlameada, este ente abençoado resolveu parar para pegar fôlego, travando a trilha. Não consegui me conter e soltei algo como "é aqui que você tem que correr, e não no rio!". Se você estiver lendo isso, perdoe minha grosseria. Eu não devia descontar em você a frustração que eu estava sentindo - mas convenhamos que faltou um pouco de tato da sua parte também ;-)

Aleluia! Finalmente uma trilhazinha!! 

Depois de 20km correndo em estradas, não tem como não sorrir na trilha!

Enfim, após cruzar o rio FINALMENTE começou a única parte da prova que poderia ser chamada de trail run... single track enlameado, gostoso de correr... isso se desse para correr, porque aqui a fila da conga estava ainda maior e mais travada. Havia uma média de 6 corredores dos 11km por corredor dos 21k nesse trecho (com base nas pessoas que ultrapassei).

Um dos raros trechos vazios da trilha
Mesmo com o percurso travado e hiperlotado, de tempos em tempos surgia um espacinho aqui e outro acolá para ultrapassagens e estava bem gostoso correr nessa parte. Estávamos paralelos ao Rio Preto e já dava para ouvir a locução da linha de chegada no outro lado do rio.

Fui saltar um tronco e senti uma fisgada... ah não... cãibra justamente agora? Chegada no estilo KTR outra vez?!





Encurtei as passadas mas ainda assim sentia umas ameaças de cãibras na panturrilha esquerda e nos dois tendões de Aquiles (nunca senti isso antes).

Barreira humana na trilha justo na única foto em que a Cris ia aparecer? Pode isso, Arnaldo?! 
So not cool...
A 500m do final já havia alguns espectadores na trilha dando um apoio moral e indicando onde era mais seguro pisar para adentrar o Rio Preto para a última travessia. Atravessei o rio e na hora que vi o pórtico de chegada as fisgadas aumentaram... e o pessoal gritando "corre, vamos, falta pouco".
Vocês não sabem como eu gostaria de correr ali para agradá-los! Mas não conseguia. O máximo que foi possível fazer foi um trotinho manquitola.

Finalizei os 23,90km em 2h37:30, me entupi de frutas, água, guaramix e açaí na tenda do pós prova e fiquei aguardando a Cris, que cruzou a linha em 3h27. Aliás, ela deve ter me avisado por telepatia que estava chegando, porque foi justamente na hora que resolvi voltar para a linha de chegada e aguardá-la que ela chegou! rsrs



Ainda ficamos um bom tempo ali na arena da prova, conversando com o pessoal da JVM, fazendo massagem com o pessoal da Ready4 e aguardando os amigos e conhecidos e só depois fomos embora.








Como ficamos bastante tempo na arena deu para ver o lado negro do EC Agulhas Negras...

Quem quiser apenas a parte boa da prova, pode parar de ler aqui.

Quem quiser ler o que nós vivemos e o que vimos acontecer com amigos, para poder avaliar se vale a pena investir tempo e dinheiro para participar da próxima edição dessa prova, segue o texto:


Vamos lá... em primeiro lugar eu acho bem chato ficar criticando provas toda hora. Vejam bem, eu não sou nenhum pentelho difícil de agradar. Eu simplesmente acho que a partir do momento que te cobram os olhos da cara para participar de um evento, o mínimo que deve ser garantido é o que está no regulamento e, mais que isso, o respeito ao atleta/consumidor.
Se você vai sair de casa, passar o final de semana fora, ter despesas com transporte, estadia, hotel pros pets,  inscrições, equipamentos obrigatórios e etc., o mínimo que se espera é que esse investimento lhe dê algum retorno, que lhe dê prazer.

Não vou negar que me diverti correndo a prova de 21-24km. O simples fato de ter 3km a mais não foi algo grave para mim.
Minha crítica com relação aos 21-24km diz respeito a apenas um aspecto da prova: cadê as trilhas e montanhas numa prova que botou tanta "banca" de marco no trail running nacional?! Cadê o terreno exigente e técnico?! Resumindo numa simples imagem:

Expectativa vs. Realidade
Sério. Se eu (e muitas outras pessoas com quem conversei) soubesse que 20 dos 24km seriam em estrada, não teria gasto todo o dinheiro e tempo que dediquei para essa prova. De verdade. É o mesmo que dizer que será uma prova nos Alpes Suíços e correr numa pista de atletismo no centro de uma cidade suíça. Dá impressão que os corredores dos 11 e 21km serviram só para fechar as contas ($$$) do evento, sem a preocupação de proporcionar um percurso técnico e interessante, com o "padrão TNF global". Ao que tudo indica, o Mountain Do Visconde de Mauá teve mais trilhas que o Endurance Challenge, pasmem!

Com relação ao restante do evento, tenho que dizer que, longe de querer ser o porta-voz dos corredores indefesos, só estou relatando o que eu vi, ouvi e li, para auxiliar no julgamento de pessoas que queiram correr essa prova numa eventual próxima edição.

Km a mais vs. Tempo de Corte

Os 11km passarem a ter 13, os 21 passarem a ter 24, 50 pular para 55 e 80 pular para 90km já é algo que não deveria acontecer - ainda mais se considerarmos a minúcia usada na divulgação dos percursos no guia de prova.
Mas pior que isso foi terem mantido o tempo de corte original do regulamento sem considerar a distância a mais. Não sei dizer com precisão, mas ouvi falar que algo em torno de 50% dos corredores dos 80km foi cortado na metade da prova! Isso não pode ser considerado normal.

Fora isso, há relatos de corredores que mesmo cortados continuaram a correr, finalizaram o percurso, ganharam a medalha e a pontuação para o UTMB. Se isso realmente ocorreu, é no mínimo bizarro.

Aid Station desabastecida

Há ainda relatos de postos de abastecimento vazios, forçando corredores a passarem praticamente 20km sem água. Inadmissível numa prova que não estipula em seu regulamento a necessidade de ser autossuficiente.

Enfim, fica aqui meu alerta para quem quiser se aventurar nessa prova no próximo ano.

___________________

Álbum de fotos aqui!

5 comentários:

Corredor 944 disse...

quase que eu iria nessa prova, só não fui por estar inscrito em outra no mesmo dia.


disseram que houve reclamações nessa prova. Não sei direito.

parabéns pelo resultado

Corredor 944 disse...

parabéns, continue forte

Gabriel C. disse...

Pois é, Corredor 994. Teve bastante reclamação sobre essa prova mesmo. Principalmente para os percursos de 50 e 80km. Nos 21km o maior problema mesmo foi a falta de trilhas.
Abraço

Jorge disse...

Parabéns pela prova, corri e não consegui completar o percurso de 80 opa 90k por erro da organizacao e de muitos que atrapalharam na trilha, pior ainda a organizacao nao ter admitido os erros e apagado nossos comentários em sua página...BOm espero que ano que vem tenha novamente.
Abs

JOrge Cerqueira
www.jmaratona.com

Corredor 944 disse...

ultramaratonistas experientes não completaram a prova???? lógico que é estranho!
e realmente, comentários de reclamação não existem na página. Agora o de elogios...... meu....como assim? Como tanta gente elogia o evento onde deram essas mancadas?

é.... coisas de brasileiro.
só por Deus.

Oremos para que no ano que vem as pessoas sejam melhores.
Abraço!