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Relato do Convidado - Francisco Avelino na Ultra Fiord 50k

A partir de agora, abro espaço nesse Blog para que o amigo Francisco - companheiro de treinos no Bonde do Trail Running -  faça o depoimento de sua primeira ultramaratona, nada mais nada menos que a Ultra Fiord 50k.

O texto foi retirado de sua página no Facebook - a Corra por Dentro - e compilado aqui com sua permissão.

Aí vão suas palavras, fotos, vídeos e emoções. Enjoy:

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Vou tentar lembrar tudo que aconteceu, na Ultra Fiord 2017 (terceira edição), prova de 50km.
Como contém muitos detalhes, o texto ficou grande e eu preferi dividir o relato em 4 etapas.

*








ANTES DA LARGADA
Começou antes de sair do hotel.
A prova ocorreu numa quinta-feira, deixei todos os itens prontos na quarta. Todos absolutamente conferidos, todos os equipamentos, tudo que ia na mochila, tudo já encaixado, tudo no seu lugar. Só faltava vestir os equipamentos e ir para a prova.
Para quem estava na cidade de Puerto Natales, que é onde eu fiquei, um ônibus ficou agendado às 6:30 da manhã para levar os corredores até o Hotel Rio Serrano, onde aconteceu a largada.
Então, na quinta meu relógio despertou às 5:15 da manhã. Eu sempre gosto de acordar com pelo menos uma hora de antecedência antes de sair para uma prova para poder me arrumar com calma e não esquecer nada. Ir ao banheiro, tomar algo de café da manhã, tomar água e sair para a prova sem desespero, sem aflições, deixando a correria para quando for dada a largada.
Acordei, fui ao banheiro, escovei meus dentes, me troquei, comecei a vestir os equipamentos. Alguns deles, por conta da temperatura em São Paulo, eu só experimentei na loja ou em casa e seria a primeira vez que correria com eles: blusas de frio, luva térmica impermeável. Outros eu já tinha usado muito: tênis de trilha, meias de trilha, relógio, bandana. Havia também os que eu havia conseguido treinar algum dia como, por exemplo, o anarok (uma blusa impermeável), aproveitei algum dia de chuva para treinar com ele para ver se ele me impermeabilizava mesmo. Pus a minha mochila e desci para a rua.
Tudo escuro, tudo fechado, ninguém na rua. Eram 6:10 da manhã. O local onde o ônibus esperaria ficava a 1,5km do hotel. Eu tinha duas opções, ir a pé ou chamar um taxi. É possível ir a pé, mas como é um lugar que eu não conheço fiquei receoso de me expor de madrugada, sem contar que eu teria 50km pela frente e andar 1km a mais poderia fazer alguma diferença.
    “Ah, mas 1km a mais não faz diferença”.
    “Mas, e se fizesse”?
Então preferi não andar essa distância até o ônibus.
O hotel em que eu estava era pequeno e familiar. Não era desses em que a recepção fica aberta 24 horas por dia. Haviam duas maneiras de acessar a recepção:
    “Por dentro” do hotel sem sair para a rua, mas as portas que atendiam a esta opção estavam todas fechadas.
    “Por fora” do hotel, saindo para a rua por uma saída de pedestres que ficava acessível para entrada e saída a qualquer hora e acionando a campainha da recepção para que alguém me atendesse.
Então só me restou uma alternativa. Saí do hotel e apertei a campainha. Esperei para que alguém pudesse ouvir, acordar, se levantar e me atender. Óbvio que essa estratégia não deu resultado. Um ou dois minutos depois apertei novamente. Deu para ouvir o som lá dentro. Então a luz da recepção acendeu.
Do lado de dentro o proprietário indagou quem era esforçando para olhar pelo vidro e identificar quem estava do lado de fora.
    “Oi, é o Francisco do 17. Eu preciso que o senhor chame um táxi para mim. Eu vou até a corrida no centro”.
Ele abriu a porta e me mandou entrar. Estava muito frio lá fora. Meu celular dizia 3 ou 4 graus. Há quem dirá que não estava tão frio, rs, mas para mim, devo admitir, estava. Então entrei na recepção e expliquei onde iria e por que, novamente. Então o Senhor Francisco fechou a porta da recepção e disse:
    “Vamos, te levo”.
Agradeci e pedi desculpas. Fomos até o carro e começamos a viagem. Coloquei a mochila que estava nas minhas costas entre as pernas. Olhei para o relógio do carro, 6:26. É perto. Dá. Vai dar. Sim.
    “Que horas tem que estar lá”?
    “O ônibus sairá às 6:30”.
    “6:27. Dá tempo. Tudo bem. É perto”.
As ruas totalmente vazias, a cidade totalmente escura, tudo obviamente fechado, carro nenhum na rua. Nenhum, ninguém. Chegamos. O ponto de encontro era em frente ao Espaço Ñandu, uma loja que vende souvenir e alguns equipamentos para adeptos de trilhas ou pessoas que fazem acampamentos. Tem muito esse tipo de pessoa por lá.
Quando desci do carro vi um ônibus desses grandes, para 40 ou 50 pessoas e um outro menor, para cerca de 20 pessoas. Muitas pessoas do lado de fora. Corredores, com certeza. Até porque, salvo corredores e motoristas de ônibus, apenas malucos estariam ali naquela hora e temperatura.
Reconheci o Fernando Nazário. Monstro. Gigante. Incrível. Usava uma jaqueta termoball e um shortinho bem inacreditável para onde estávamos, eu não queria nem imaginar para a neve. Ele já estava no ônibus, entrava e saía, não entendi muito bem. O cumprimentei e entrei no ônibus maior.
Quando entrei no ônibus, vi vários corredores sentados na esquerda e na direta. Comecei a olhar para eles e todos (9 de 10, quase todos) com os óculos na cabeça. Só aí eu percebi que, de todos os equipamentos obrigatórios que a organização havia exigido, de tudo que eu havia deixado pronto para carregar, de tudo que eu vesti, eu havia esquecido de colocar os óculos. Haviam ficado no hotel, na mala onde estavam todos os itens que agora estavam comigo. Eu vesti tudo que estava na mala. Menos os óculos. Comecei a ficar preocupado.
Conferi o passaporte do corredor (um pequeno documento que a organização desenvolveu, onde são marcados os horários de passagem em todos os postos de controle (PC), se algum posto estivesse faltando, o corredor era desclassificado) e o primeiro PC era no hotel da largada. No passaporte, para este primeiro PC, estava escrito exatamente assim:
     “Checagem de equipamentos”.
Meu sangue gelou mais frio do que a temperatura que estava lá fora. “Não é possível que tudo irá por água abaixo agora, antes mesmo de eu ter a chance. Quer dizer, eu tive a chance, mas eu falhei. Eu esqueci os óculos”.
Tudo isso durou um segundo na minha cabeça quando entrei no ônibus. Continuei caminhando e procurando um lugar. Várias pessoas em duplas. Encontrei um lugar mais ao fundo. Tinha uma moça sozinha. Perguntei se poderia me sentar ao lado dela e ela disse que tudo bem. Me sentei e ficamos todos esperando o ônibus partir.
Uma pessoa da organização da corrida entrou no ônibus e, do fundo até a frente, começou a checar todos os corredores presentes. Para cada um perguntava o nome e o número e anotava numa prancheta. Identifiquei que a moça ao meu lado era mexicana porque o número do peito do corredor traz uma pequena bandeira do país de origem. Mayra era o nome dela.
Então partimos. Tudo ainda escuro. Vidros embaçados. Saímos de Puerto Natales às 6:44.
Eu não consegui ou não quis dormir. Estava vestido com 3 camadas de blusas (segunda pele, flecce e anarok) e sem as luvas. Pus a touca do anarok e estava com a bandana na cabeça. Mantinha minhas mãos debaixo das minhas pernas para que aquecessem e de tempo em tempo eu virava as mãos para que elas não “dormissem”. Tinha a preocupação de que, se elas dormissem, ao chegar ao Hotel Rio Serrano, onde com certeza estaria mais frio do que onde eu estava, haveria alguma dificuldade na circulação sanguínea das extremidades. Fechei meus olhos tentando me manter o mais concentrado possível para, se eu conseguisse passar pelo primeiro PC, correr tranquilamente.
Duas horas depois chegamos ao hotel. Estava muito frio. Deu para ver ao entrarmos no terreno do hotel o vasto campo gramado e congelado.
Desci do ônibus e entrei no hotel. Queria aproveitar o tempo antes da largada do lado de fora para me habituar ao frio, mas resolvi entrar para ir ao último banheiro ainda em ambiente civilizado até o fim da prova, tirar uma das camadas de blusas e assinar o passaporte do corredor.
No dia anterior, na quarta-feira, os corredores haviam participado do congresso técnico da prova. O palestrante do congresso foi o campeão da primeira edição da Ultra Fiord, Fernando Nazário.
     “É importante, apesar do frio, não largar com todas as camadas. Quando largamos, estamos parados e parado a roupa não aquece, mas quando começamos a correr, a roupa aquece muito e aí percebemos que temos que tirar uma camada. Comece a prova de anarok e segunda pele e NUNCA tire a segunda pele”.
A segunda pele é uma camisa (ou calça) bem fina e bem grudada ao corpo. Parecida com a que vemos com jogadores de futebol depois que eles tiram a camisa do time. Só que essa aqui era uma de manga longa e talvez seja um pouco mais preparada para o frio do que aquela do jogo de futebol.
Quando entrei no hotel, reparei uma fila de corredores. Era alguém da organização fazendo a checagem. Pensei “é aqui, não pode acabar aqui. Que checagem de equipamento será feita aqui? Teremos que tirar todos os itens da mochila”? Então a moça pediu meu passaporte. Entreguei e ela simplesmente pegou meu número, anotou o horário em que cheguei, assinou o nome dela e não fez mais nada.
Eu estava na prova.
Fui ao banheiro e na volta parei num sofá no lob do hotel para tirar o flecce, a camada intermediária e térmica. Para tirar o flecce eu tirei a mochila, coloquei a mochila no sofá, tirei o anarok, tirei o flecce.
Nesse momento, o diretor da prova entrou no saguão.
     “3 minutos para a largada”
Olhei no meu relógio, 8:47.
Então, rapidamente dobrei e enrolei o flecce, vesti o anarok novamente, sentei no sofá e encaixei o flecce na mochila no lugar que havia planejado anteriormente. Minhas luvas também estavam na mochila. Preferi largar sem luvas. Estava mais frio do que quando a viagem de ônibus começou, mas eu queria largar sem luvas para que, no momento em que eu estivesse num lugar mais frio, as luvas tivessem uma ação mais eficaz. Acreditei que, colocar a luva no hotel, manteria minha mão aquecida, mas poderia demonstrar menor eficiência no meio da neve. Não sei exatamente quando, mas construí essa lógica na minha cabeça e assim fui. Passar um pouco de frio naquele momento para que a luva fizesse bastante efeito quando eu realmente precisasse dela, e não o contrário.
E lá veio o diretor.
     “2 minutos para a largada”. E muito rápido. “1 minuto para a largada”.
Então saí. Muitos ainda se arrumando no hotel. Uma moça fechando a bolsa de outra que derrubou a luva. Me abaixei, peguei e entreguei a ela. Saí e lá fora, no mundo real, a temperatura marcava -5° C.
Dava para ver o gramado geado (e prateado) e o pórtico de largada. Eu iria correr 50k. Minha primeira ultramaratona. A mais difícil de todas. Caramba.
A moça que conferiu os passaportes estava lá fora perguntando “todo mundo assinou”? Eu perguntei “é aquela assinatura que você fez lá dentro”? Tirei meu passaporte para que ela conferisse, mas estava tudo certo.
     “30 segundos para a largada”.
Então todos foram para o pórtico. Fiquei a cerca de 5 metros dele. Vi o Nazário bem debaixo do pórtico. Esses caras vivem disso e segundos vencem as corridas.
O diretor começou a contar.
     “10 segundos. 9. 8”. E todos juntos. “6. 5. 4. 3. 2. 1”.
Não me lembro se teve alguma buzina. Na minha cabeça teve. Ou não teve. Talvez. Não sei. Largamos. E eu corri.





NO COMEÇO
Não acelerei. Sei o meu ritmo. Conheço meu ritmo. Treinei ele. Então eu corri.
Voando, lá na frente, o Nazário. Eu não tinha nem 50 metros de prova e ele já estava uns 200 metros à minha frente. O cara veio para ganhar. Ele não veio fazer a primeira ultramaratona. Ele veio para ganhar mais uma vez.
Durante uns 2 ou 3 kms corremos nesse campo verde geado. Ou eu deveria dizer “campo prata”. Uma subida leve ou descida leve. Na maioria plano.
Comecei a sentir minhas mãos muito frias. Muito frias. Do tipo muito frias. E me veio a orientação do Nazário no congresso:
     “Não espere para ter certeza que aquele frio, sede ou fome tem que ser atendido. Atenda quando perceber que o problema existe. Sua vida pode depender disso”.
Comecei a tentar correr mexendo os dedos. Abria e fechava as mãos, os dedos, o polegar, mas não estava adiantando nada. Nada. Tive que pôr as luvas.
Eu estava num segundo grupo de corredores. Nazário e mais um ou dois voando, atrás destes um grupo à minha frente. E eu era parte desse segundo grupo. Grupos, em corrida, são um perigo. Eles podem fazer você correr mais do que você está preparado, porque você tenta correr na velocidade do grupo e pode ser que isso te force mais e então você acaba acelerando ou eles podem fazer você correr mais lento do que está preparado, você percebe que pode correr mais, mas o grupo está te segurando.
Tinha mais um grupo atrás e minhas mãos estavam congelando. Eu teria que parar e pôr as luvas.
Soltei os feches da mochila, saí da trilha, tirei a mochila, joguei a mochila no chão, tirei as luvas da mochila, joguei-as no chão, coloquei a mochila de volta, peguei as luvas e voltei a correr. Colocar a primeira luva foi muito difícil. Meus dedos estavam com as pontas ardendo muito pelo congelamento e eu não tinha sensibilidade suficiente para mantê-los firmes enquanto colocava a luva. Quando consegui manter os dedos firmes para colocar a primeira luva, me faltava colocar a segunda. E agora a minha mão tinha movimento reduzido por conta da luva que já havia colocado, mas consegui. Coloquei as duas luvas.
Olhei para trás e só tinha uma pessoa atrás de mim. O tempo que eu perdi me deixou em penúltimo.
Quando fui para essa prova, eu tinha um desejo: eu queria não ser o último. Mentalmente, eu decidi recuperar a posição em que eu estava. Sem exageros. Sem forçar muito o meu ritmo, eu voltaria ao segundo grupo. Pouco a pouco, cheguei ao meu grupo e continue a trilha.
Meu relógio marcou 5km. Ele vibra a cada 5km. 33 minutos. WOW. Muito bom. Quase tempo de asfalto. Para mim. Para os meus tempos.
Chegamos à trilha e ela estava bem fechada. Trilhas oferecem essa dificuldade. Uma fila se formou e ficou difícil ultrapassar o corredor à frente. Às vezes, pisar fora da trilha era mais lento e difícil do que pisar na trilha e eu fui seguindo aquela fila. Foi quando o cadarço do meu pé esquerdo desamarrou.
Eu sempre dou um baita nó para evitar que desamarre, mas foi inútil. Não sei. Talvez a ansiedade tenha me feito amarrar mal o cadarço. Fato é que eu não conseguiria amarrar o cadarço de luva.
Rapidamente, eu entendi o que eu teria que fazer. Tirar as luvas, pisar fora da trilha, jogar as luvas no chão, amarrar o cadarço, pegar as luvas, voltar para a trilha, calçar as luvas. E foi exatamente o que eu fiz. Tudo muito rápido. Amarrei o cadarço o mais firme que eu consegui com as mãos geladas. Perdi um pouco o grupo, mas os encontrei novamente um bocadinho de trilha depois.
Começou uma subida, muito frio. Vento gelado. Não tenho muita técnica de subida. Sou lento. Sinto minhas pernas pesadas. Corro onde consigo, mas em subida eu admito andar sem constrangimentos. Isso é normal... para pessoas normais como nós, não para os campeões... eles sobem voando, eu não sei como fazer isso.
Olhando para trás, a vista do vale onde fica o hotel é impressionante. Foi o meu primeiro contato com a grandeza da Patagônia. Ainda consigo ver a cena na minha cabeça.
Subi esse primeiro morro. Sabia que era uma subida até o km 8, depois descia um pouco e subia novamente até o ponto mais alto da prova, no km 13. Ficava a 865 metros acima do nível do mar. Ali começava o trecho que meu treinador chamou de “Zona da Morte”.
Zona da Morte, porque no ano anterior veio a falecer um mexicano durante a prova nessa região.
Quando cheguei ao km 9, pela primeira vez na minha vida, eu vi neve. Tinha neve na trilha.
Na minha frente iam dois brasileiros e quando eles viram a neve gritaram qualquer coisa, rs. Provavelmente, também era a primeira neve deles. Então eles pararam para filmar e tirar fotos. Eu só passei. Também era incrível para mim, mas eu sabia que ainda teria muita neve, que não seriam só aqueles dois metros no meio da trilha. Teríamos muito mais para nos encantar. E para correr.
Então fui embora, deixei os dois para trás e continuei. Meio km a frente, mais neve. O mesmo tanto. Uma faixa sobre a trilha. E ficou claro porque havia neve. Porque a temperatura não conseguiu esquentar o suficiente para poder derretê-la. Tudo isso para entender que estava frio ou que esteve mais frio durante a noite.
Em algum momento encontrei o primeiro PC na prova. O rapaz pediu meu passaporte, anotou, assinou e me devolveu. No PC havia barrinhas de chocolate com flocos de arroz, um pequeno barril de água e outro de isotônico. Mais cedo, eu saí do hotel com 750ml de água no reservatório da mochila, um reservatório de 500ml de água e um reservatório de 500ml vazio. Então eu reabasteci a água de 500ml e o reservatório vazio eu abasteci com isotônico.
Saí com a garrafa vazia porque ouvi do meu treinador (e no congresso no dia anterior) que seria possível encher de água em qualquer rio do caminho. Todos eram extremamente puros. Afinal de contas, o que polui é a civilização e ali não havia esse tipo de perigo. Agora eu estava abastecido com água e isotônico. Minha garrafa vazia ia funcionar melhor do que eu planejei. Fui embora.
Um pouco mais à frente encontrei uma clareira com um gramado. Quer dizer, imaginei que era um gramado. Estava completamente coberto de neve. Quando pisei, descobri que não era um gramado. Foi o meu primeiro contato com o charco.
Charco é uma vegetação muito comum na região. É interessante. É fofo. Afunda. Parece uma raiz com barro e areia, além de despertar muito ódio no coração de cada corredor.
Essa clareira deveria ter uns 200 metros e eu corri o que consegui sobre o charco e, sem querer, por sorte, ou chame como quiser, olhei para a esquerda e vi uma vista absurdamente linda. Um lago enorme (ou era mar, não sei dizer). Uma montanha verde ao fundo e o sol brilhando muito. A água refletia o sol. Parecia um rio de ouro. Olhei uma ou duas vezes, sem parar de correr. Chegando ao final deste trecho ouvi aqueles dois brasileiros que pararam na neve chegando à clareira. Virei para trás, vi os dois e gritei “não percam a vista”. Não entenderam e gritei novamente, apontando para o local onde estava tudo aquilo. Eles olharam e eu voltei para trilha. Só consegui ouvir um palavrão enorme. Fiquei muito feliz de conseguir dividir com alguém aquela vista impressionante.
Continuei a corrida e a cada passo tinha mais neve. Pela primeira vez eu estava num bosque com muitas árvores caídas, galhos e raízes. Trilha da boa. Sobe. Desce. Pula. E foi tudo enchendo de neve. Neve sobre os galhos, sobre as árvores, sobre o chão. Como se tivesse chovido e molhado tudo, mas era neve. Nesse momento, eu precisei parar e tirar uma foto.
Meu celular estava no meu bolso. A câmera, em geral, funciona com toque na tela. A tela não respondia ao toque da luva. Então veio todo o exercício de tirar a luva novamente. Tirei só a mão direita. Peguei o celular. Liguei a câmera. Fiz uma foto do local e uma selfie. Quase antes de começar tudo, eu já tinha terminado, rs. Coloquei logo a luva de volta. Qualquer segundo sem a luva congelava muito.
Até achei as fotos bem bonitas, mas olhando para elas hoje percebo como é impossível traduzir o que era aquele lugar. A foto não conseguiu. Quem vir a foto vai falar que conseguiu, mas eu estive lá e a foto não chega nem perto.
Desde pouco antes já corríamos na neve, mas era uma neve que caiu em alguma nevasca e, com um pouco mais de temperatura iria derreter “facilmente”. Cada passo adiante a neve engrossava mais. E haveria mais.
Continua a trilha. Sobe. Corre. Pula.
Até o momento que chegou uma subida muito forte. Cheia de neve. Olhei meu relógio. Km 13. Era a subida para o ponto mais alto da prova. Então vamos subir. Eu sou ruim em subidas e aqui, nessa subida, aos 13km de prova, eu senti câimbras. Eu me alimentei bem, me hidratei bem, mas não teve jeito. Talvez pela temperatura extrema, as dores vieram.
Mas (tem sempre um “mas”), com todos os treinos que eu fiz em montanha e todas as corridas em montanha, eu aprendi a controlar as câimbras. Eu não sei se isso é uma habilidade, não sei exatamente se é bom ou ruim, mas o fato é que câimbras não me impedem mais. Aprendi. Como faz? Não sei. No meio da prova eu sei. Já fiz várias vezes. Terminei bem, nunca me machuquei, nunca tive lesão. Tomara que não aconteça. Eu aprendi a controlar câimbras. Na minha última prova, elas tinham vindo no km 24. No km 13 era muito cedo, mas ok. Deixa comigo.
Subo. Subo e continuo subindo. Uma subida cheia de árvores e você precisa escalar entre as árvores, galhos e neve. Muita neve. Tudo neve. É como, digamos, escalar uma subida cheia de neve. É isso. Rs.
Quanto mais sobe, menor a presença de árvores e vegetação. Até que, em algum momento, elas acabaram. E é assim que acontece no topo das montanhas. A vegetação desaparece ou se torna rasteira.
Na minha frente, no final da subida a cerca de 50 ou 100 metros, vi um grupo de pessoas paradas tirando fotos. Então olhei para a minha esquerda e direita e entendi onde estava. Era uma subida completamente cheia de neve. Tudo era neve. Cercada de picos nevados de todos os lados. Todos os lados. Pensei “vou parar onde estão aqueles corredores, não vou parar aqui enquanto ainda resta subida para subir”. Sempre entendo que, se estou numa subida e cansado, não vale a pena parar antes de terminar. Se parar, estarei mais cansado para continuar do que estou no momento.
Ao terminar a subida me encontrei num lugar incrível. Estava no ponto mais alto da prova. E estava muito frio. Do tipo muito. Não era mais neve sobre os galhos ou raízes. Era neve e só.
Foi aí nesse frio que eu percebi que lá embaixo, antes dessa subida começar, antes de estar na Zona da Morte, eu deveria ter colocado o flecce. A camada térmica do meio, que retirei no hotel. Agora não havia escolha, eu precisava dela.
Era ali. Eu tinha que realizar uma tarefa muito simples: tirar as luvas, jogar as luvas no chão, abrir o feche da mochila, tirar a mochila, jogar a mochila no chão, tirar o anarok, jogar o anarok no chão, tirar o flecce da mochila, vestir o flecce, vestir o anarok, colocar a mochila, fechar a mochila, vestir as luvas. Fiz tudo isso muito rápido e durante um segundo ou dois que duraram uma eternidade eu estava no topo da montanha congelada com vento cortante vestindo apenas a segunda pele. É algo como estar só com uma camiseta dentro de um freezer. Mas um freezer que quer te matar. Rs. Brincadeira. Não, não é brincadeira. É sério. Muito vento e muito frio.






NO MEIO
O engraçado desse momento foi quando puxei a mochila do chão. Naquele lugar onde eu estava havia várias pedras pretas soltas, não era só neve. Puxei a mochila do chão e, no lugar onde ela estava, junto às pedras pretas soltas havia algo que não era uma pedra preta solta. Era um óculos. De alguma forma, alguém deixou cair seus óculos escuros. Um Oakley. Olhei para frente e aquele grupo já havia desaparecido. Olhei para traz e não vi ninguém. Pensei “se eu não levar estes óculos, o próximo grupo vai levá-lo ou vai pisar sobre ele sem sequer perceber ou este plástico ficará aqui pela eternidade”. Peguei os óculos e guardei-os na mochila.
Alguém perdeu os óculos. Alguém descuidado, talvez. A gente nunca sabe a história do outro.
Chame como quiser: deus, sorte, universo, descuido do corredor da frente ou x. Tudo o que mais havia me preocupado naquele dia, a montanha havia acabado de me dar de presente.
No segundo antes de colocar a luva direita eu pensei “preciso filmar isso, preciso mostrar para a Juliana (minha esposa) onde eu estou”. Filmei. Mais uma vez, o vídeo não conseguia expressar o lugar onde eu estava.
Pronto, voltemos à corrida. Eu corri na neve. Corri mesmo. Quando dava. As montanhas gigantescas de cada lado estavam cercadas de neve. Como um pão doce. Como um sonho. Pontiagudo, violento e assassino. E espero que agora você olhe para um sonho com outros olhos.
Correndo, reparei em um fotógrafo na minha frente. Carregava uma mochila gigantesca. Ele não corria, apenas tirava foto das pessoas. Então eu corri mais. Bonito, pimpão, todo atleta para sair bem na foto. Até que algum passo que eu dei afundou mais do que eu imaginei e eu fiquei lá desequilibrado na frente do fotógrafo parecendo um boneco de posto. Foi bem tosco e tomara que isso não tenha saído na foto. Ou tomara que tenha.
Continuei correndo. Eu conseguia distinguir um corredor uns 200 metros à minha frente. Vestido de preto. E mais à frente mais um ou dois corredores.
Mais um fotógrafo igual ao primeiro. Tentei correr sem desequilibrar. Fiz o que pude.
Alcancei o corredor da minha frente (era uma corredora) e, curiosamente, tinha uma bandeira do México na mochila da moça. Era a moça que veio comigo no ônibus.
Passei por ela e nunca mais a vi.
Muito frio e vento. Além da touca do anarok, coloquei a bandana no pescoço e sobre o nariz e a boca. Apenas meus olhos estavam “de fora”.
Continuei a correr e via os corredores da frente e pensava “vou alcançar vocês, vou pegar vocês”. Sentia que estava me aproximando. Cada vez mais.
Aos poucos a neve no chão virou pedra solta. Encosta de montanha. Ainda lá no meio do gelo. Onde havia neve, o pé afundava e debaixo dela, pedra solta. Ou água, que escorria pela montanha. Dava para ouvir quando era água. Então era o desafio do equilíbrio. O tempo todo.
De quando em quando eu puxava um pouco a touca para olhar para a direita e para a esquerda, para não esquecer jamais o lugar em que eu estava. Eu queria poder ter poderes para conseguir descrever aquele lugar. Não tenho esses poderes.
Um pouco mais de corrida e perseguição aos corredores da frente e encontrei um PC. No meio da neve, vi duas barracas de acampamento e umas roupas estendidas num varal improvisado. Apesar de toda a neve, estava sol. Quando cheguei lá havia dois homens. Um vestido mais ou menos como eu e outro com roupa camuflada do exército. Esse veio até mim.
     “Está bem”?
     “Sim. Sim”.
     “Em 5 kms haverá um PC com comida quente. Você terá segurança e poderá salvar sua vida lá”.
Não que eu estivesse morrendo. Era apenas uma lembrança do falecimento do corredor no ano anterior e de que, se eu precisasse de ajuda, o ideal seria partir para o PC fora do frio, e não voltar àquele no meio da neve.
Dei meu passaporte para que anotassem suas obrigações e fui embora continuar minha perseguição. Em 5km estaria fora da neve.
Passei por lagos enormes de água de degelo. Dois na esquerda, um na direita. E lá, a 40 metros do lago, era possível olhar para ele e ver o fundo. Duvido que aquela água tivesse algum tipo de poluição. Não fiquei atraído a chegar perto do lago. Me contentei com a vista de onde eu estava mesmo.
Andei muito nas pedras soltas. Era difícil ficar de pé mesmo andando. Tentava imaginar como correu o Nazário ali. De certo passou muito mais rápido que eu.
Percebi que estava descendo. Deixando a montanha. Sempre vendo os corredores na minha frente. Então, do meu lado direito, vi a maior montanha de todas. Não sei o nome. Não sei. Me desculpe. Só pude agradecer por não precisar subir ao topo dela durante essa prova, rs. Simplesmente gigante. Na minha cabeça fiquei imaginando quantos anos teriam aquelas formações. Incrível. Absolutamente.
Em dado momento da descida a neve acabou. Eram apenas pedras soltas e alguma vegetação. Eu havia deixado a Zona da Morte.
Começava a Zona do Barro.
Muita água de degelo gerava muito barro. Eu tentei evitar o barro o máximo possível neste trecho. É interessante porque lá na frente, depois de muito barro, eu nem ligaria mais, rs. O barro já era meu parceiro. Mas, naquele momento, eu estava evitando. Desviando do barro, comecei a reparar uma planta. Usei para me segurar e consegui reparar que era uma planta muito forte, muito firme. Era a vegetação do local e estaria presente quase que até o fim da prova nos próximos quase 30 km que faltavam. Os galhos eram fortes como raízes. Chamei de árvore raiz.
Continuei descendo até um bosque. Desviando do barro e segurando na árvore raiz. Dali para frente não haveriam mais montanhas a subir. Apenas desníveis no bosque.
Galhos. Troncos. Árvores caídas. Raízes. Rios. Pedras. Barro. Muito barro.
Cheguei ao PC. Aquele que me manteria quente e vivo. Encontrei os dois corredores da minha frente. Eram duas moças. Uma aparentava minha idade e outra um pouco mais velha. Cheguei e elas foram embora.
O rapaz pediu meu passaporte e perguntou se eu queria uma sopa quente. Claro! Tirei as luvas e peguei o copo de sopa. Sentei. Abracei o copo com as mãos. Foi o miojo mais gostoso que comi na vida. Quando terminou, tomei o caldo. Que iguaria!
Depois o rapaz me perguntou se eu queria um café. Apresentei meu copo (um dos itens do equipamento obrigatório era um copo não descartável) e ele me serviu água quente. Água quente? Água quente não é café. No chão, uma lata de café instantâneo. Outra de açúcar. Aprontei e bebi. Não sou muito fã de café, mas neste momento eu era bastante fã da quentura. Rs.
Fiquei uns 5 minutos. Logo chegou um corredor atrás de mim. Pela conversa dele com o pessoal do PC, entendi que ele era colombiano. Conversamos. E ele só tomou o café, assinou o passaporte e foi embora. Fui com ele.
Eu fui o seguindo e começou então um jogo bem interessante. Existia durante a prova uma navegação. Canos azuis refletivos ou fitas brancas ou azuis amarradas a galhos ou trocos. Os corredores tinham que seguir essa marcação. Sempre era preciso identificar o próximo ponto de navegação para seguir e tinha que ser rápido, senão o corredor ficava parado procurando o próximo ponto de navegação. Às vezes dava para ver dois adiante. Três. Então você sabia para onde tinha que ir e só precisava se concentrar em onde pisar, como subir, como descer, onde pular e, enfim, como chegar lá para poder achar a próxima marcação.
Essa parte do bosque tinha uma navegação muito complicada e é um exercício bem difícil navegar com alguém te perseguindo. É uma pressão psicológica não planejada. Até mesmo sem alguém te perseguir, ter que correr e navegar cansa e desgasta.
Durante esses quilômetros em que estive com o colombiano na frente, eu não precisei navegar. Ele navegava para mim. Sim. Eu usei o rapaz. Me perdoem. Óbvio que, ao passar pela trilha, eu reparava os pontos de navegação. A vantagem é que eu não precisava procurá-los. O colombiano os pesquisava para mim.
Quando a mata abriu e a navegação ficou mais fácil, baseada na trilha, ele foi embora. Sumiu da minha frente.
Olhei para o meu relógio para ver em quantos km estava. 22.38km. Achei estranho. Pensei que seria mais àquela altura. “Meu relógio parou. Como posso identificar se ele está marcando correto”? Andei mais uns duzentos metros e olhei novamente a quilometragem 22.38km. Era isso. Meu relógio estava pausado. Em algum momento, tirando ou colocando as luvas eu tinha pausado o GPS. Ativei novamente e segui.
Agora eu não tinha certeza de onde estava. Salvo a lembrança do mapa, não tinha certeza com relação a que km estava. “Bem, de 50k não passa”. Continuei a correr.
Alguns kms à frente encontrei o colombiano sentado à beira da trilha com uma gaze na mão, sem o tênis. Diminuí a corrida.
     “Está tudo bem”?
     “Sim, eu só vou colocar a gaze, não é nada”.
     “Precisa de ajuda”?
     “Não”.
     “Então nos vemos em breve”.
Segui minha corrida. Muitos galhos, árvores caídas, raízes, atravessar rio pisando nas pedras para não molhar, escorregar, afundar no barro, subir, descer. Subir para descer. Descer para subir. Parecia até uma música de axé.
Numa descida mais à frente, num tronco imenso caído, as duas corredoras do PC sentadas. Quando me viram descendo levantaram e começaram a andar na trilha. Eu estava numa estratégia mais ou menos assim: plano eu corria, descida eu corria, subida eu me esforçava, mas não corria para não me desgastar mais do que pudesse estar. Eu percebi que elas corriam pouco e andavam mais. Elas estavam me travando. Era a armadilha do grupo. O grupo estava cansado e andando e eu estava imitando o grupo.
Assim que foi possível desci por fora da trilha, pisei num barro diferente, as ultrapassei e nunca mais as vi. Fui embora.
Continuava o bosque interminável e a navegação que cansava. Os canos azuis ficavam no chão. Ver um deles era gratificante por identificar o trajeto da trilha. Não vê-los  significava ter que levantar o pescoço para procurar um tronco ou galho com uma fita. Cansava.
Meu relógio marcou 6 horas de corrida. Meu planejamento era fazer em 10 horas. Se com a pausa inesperada do GPS eu não tivesse parado o relógio por muito tempo, devia estar com 30km. Estaria dentro do meu planejamento.
Foi quando eu encontrei um rio. Era o primeiro rio em que era impossível encontrar pedras para pisar e atravessar. Ele era largo, deveria ter uns 8 metros. Fundo até o joelho. Atravessei. Gelado. Em seguida ouvi mais alguém passando por ele. Quando olhei para trás identifiquei o colombiano. Pensei “nossa, as moças me atrasaram mesmo. Óbvio que eu não sou tão rápido e ele deve ser mais rápido que eu, mas provavelmente ele foi mais esperto com as moças”.
     “Olá, está melhor”?
     “Sim”!
Perguntei para ele quantos km tinha no relógio dele. 31km. No meu, 30.5km. Eu não tinha pausado por muito tempo. Que bom!
Seguimos. Dividimos a navegação. Hora eu, hora ele. Percebi que quando a navegação era clara ou quando a trilha era simples, ele distanciava e ia embora. E foi assim até que em algum momento o bosque abriu novamente. Eu queria agradecê-lo por toda a navegação que ele me fez sem querer, mas ele foi embora. Rapaz mal-educado, rs.
Km a Km continuava a luta constante contra o bosque, com as subidas e descidas infindáveis. De repente uma clareira verde gramada. “Ufa, vou poder correr”, pensei inocentemente. Nada. Era charco. Piso difícil, afundava, muito barro, não dava nem para pisar, quanto mais para correr... Segurei na planta raiz e fui seguindo. Cada passada era muito difícil. Voltei para o bosque, atravessei mais um rio, subi um morro, pulei uns galhos, escorreguei, afundei.
A cada subida vinham as câimbras, mas tudo bem. Como eu disse, fui aprendendo a lidar com elas.
Eu ainda estava de luvas e flecce. Ao me alimentar, precisava tirar a luva. Foi quando reparei que a temperatura já estava ficando aceitável.
Resolvi tirar e guardar as luvas e o flecce. Tarefa fácil. Sair da trilha, tirar as luvas, jogar as luvas no chão, tirar a mochila, jogar a mochila no chão, tirar o anarok, jogar o anarok no chão, tirar o flecce, dobrar, enrolar, guardar o flecce na mochila, amarrar as luvas na mochila, vestir o anarok, vestir a mochila.
Quase no fim disso tudo, um corredor me passou. Cumprimentei-o em inglês e voltei a correr. Em seguida, logo atrás de mim vinha uma corredora. Percebi que eles eram da prova de duplas e a deixei passar, para ficar perto dele, e fiquei no grupo correndo atrás dela.
Foi quando a ouvi falar em português com o parceiro à frente:
     “Será que o próximo posto de controle está longe, Má”?
     “Onde será o próximo posto de controle, Má”?
     “Aqui está escorregadio, Má”.
     “Eu aceito, Má”.
     “Eu quero água, Má”.
     “Eu estou com fome, Má”.
Não sei em que momento ela percebeu que eu era brasileiro, mas me perguntou se eu sabia onde era o próximo PC. Respondi que não.
Não sei se o Má era brasileiro, mas sei que entendia português, rs.
Segui com eles. O Má ia nos navegando. Em algum momento, ele foi para direita e errou a navegação. Ela identificou o caminho “por aqui, Má”. Esperei o Má voltar e fomos para a esquerda. Não precisava ter esperado, mas eles eram uma dupla e achei por bem deixá-los juntos.
Então chegamos a um momento interessante que dominou meus pensamentos por uns 3 ou 4 km.
Era uma região de muito barro. Muito. Um barro preto. Sabe aquele barro que a gente via no seriado Chaves e pensava “nem existe barro preto, é tudo mentira”. Existe. É real.
Afundava muito. Era um pântano. Eu via os dois na minha frente pisando e afundando. Pisando e afundando. O Má pisou e foi direto. Afundou total. Até o joelho ou mais. E não conseguia sair. A moça afundou em seguida. Ambos com os dois pés.
Posso dizer que fui bem treinado. Agradeço ao meu treinador Marcelo Sinoca e ao pessoal do Bonde do Trail Running. Tenho treino e experiência de barro e mato. Não sou o melhor, mas já vi ou vivi situações parecidas em treino. Onde tinha raiz eu pisava. Onde tinha galhos ou folhas, tinha raiz e eu pisava.
Então onde eles estavam afundando eu conseguia passar. Alcancei-os muito fácil e estudei cada passo antes de pisar. Fui comendo pela beirada e eles afundando. Em certo momento, afundaram de vez, nenhum conseguia sair do barro preto. Fui passando por eles. Pisei o pé esquerdo numa raiz e o direito não tinha como: ou eu arriscava um pulo (que poderia estender um músculo) ou escolhia o melhor lugar no barro para pisar. Escolhi. Pisei. Afundei. Muito. Mas eu estava segurando o galho de uma planta raiz. Firmei a mão esquerda no galho e puxei o pé. Ele veio. Eu saí. No que saí já pisei fora do barro preto. Nesse momento a moça disse “eu estou presa”. O Má também estava preso. Eu segui.
E o desafio psicológico que me permeou durante quilômetros foi:
“Será que eu deveria tê-la ajudado a sair do atoleiro? E ajudado ao Má? Simplesmente tirar o meu joelho do barro e seguir em frente foi uma atitude antidesportiva minha? Foi errado? Foi antiético”?
Somos todos atletas amadores, nenhum de nós iria ganhar a corrida, segundos a mais ou a menos não fariam diferença nos nossos resultados.
Consegui distinguir alguns pontos nos meus pensamentos:
    Eles estavam em dupla. Eu não tinha dupla nenhuma. Eles tinham o dever de se ajudar. De alguma maneira. Eu não tinha ninguém para me ajudar.
    O regulamento repete várias vezes que esta é uma corrida de autossuficiência. No congresso técnico foi dito a mesma coisa repetidas vezes. Autossuficiência. Ou seja, o corredor precisa cumprir a prova sozinho.
Eu somei isso de autossuficiência e o fato deles estarem em dupla, o que, entendo eu, já é mais do que autossuficiência e cheguei à conclusão de que estava agindo corretamente para com a minha prova.
Mais adiante o próximo PC. Meu GPS marcava 35km. Eu sabia que aquele era o último PC. Faltavam 15 km.
Nesse PC havia mais dois brasileiros. Eu cheguei, dei meu passaporte para o rapaz do ponto. Ele me perguntou se eu queria uma sopa e eu neguei. Ele preencheu meu passaporte, eu abasteci minha água (não tinha isotônico nesse ponto, enchi as duas garrafas de água), peguei uma barrinha de chocolate com flocos de arroz e fui embora. Demorei menos de um minuto nesse PC. Os brasileiros saíram logo atrás de mim, mas cada passo eu abria distância deles. Na subida, descida, charco, barro, outro charco, eu os deixei para traz.




NO FIM


A maior distância que corri na minha vida havia sido de 40.6km em 9h04m.  Fiquei olhando meu relógio pra ver em quanto tempo chegava nesse limite. Cheguei com 8h45m. Diminuí em 19 minutos o tempo que percorri minha maior distância. E num lugar, digamos, um pouco mais difícil.
Minha próxima distância chave era a maratona. Eu nunca tinha corrido uma maratona. Estava com 40.6km e em alguns minutos atingiria 42.195. Eu me tornaria um maratonista. Bastava acompanhar o relógio e logo eu atingiria essa marca.
Um pouco mais dentro do bosque eu vi mais uma dupla. Um casal. Me aproximei. Quando cheguei, vi a bandeira do Chile no número do rapaz. O número estava na mochila. Eu cumprimentei-o em espanhol. Ninguém me respondeu.
Eles estavam com bastões, que é um equipamento não obrigatório que, dizem e eu acredito, ajuda muito durante o percurso e subidas. Preciso experimentar um dia. Porém eles só andavam. Cheguei muito fácil neles por isso. Subida andando. Plano andando. Só andavam. Estavam quebrados.
Quebrado é um termo que os corredores usam para dizer que não aguentam mais dar um passo sequer. Como se estivessem amarrados ou com um muro à sua frente.
Além de não me responder, consegui reparar que não se falavam entre si. Devem ter brigado entre eles. Depois fiquei pensando “essas duplas são perigosas, porque o regulamento diz que não podem ficar a mais de 50 metros um do outro, ou seja, tem que correr juntos e se o mais rápido ficar irritado com a lentidão do outro ou o mais lento com a velocidade do mais rápido, pode dar confusão”.
Esses dois aí nem se falavam, ainda menos comigo, rs. Passei e sumiram mais rápido do que qualquer coisa, rs.
Então olhei meu GPS. 42.3km. Eu era maratonista e nem fiquei sabendo. Rs.
Nesse momento, com pouco mais de 8 horas de prova a vegetação tinha perdido um pouco a folhagem e o bosque foi ficando bem cinza. Até que se fechou completamente. Ficou tudo muito escuro, parecia que havia anoitecido de um segundo para o outro. O barro preto ficou bem mais difícil de identificar e de desviar. Afundei mais aqui na escuridão. Eu sabia que havia luz do dia ainda, era só o bosque fechado, não havia anoitecido ainda. Em breve eu sairia daquela escuridão. Parecia muito aquele momento de medo que vemos nos filmes de terror, do pessoal que foge para a mata. Os únicos ruídos que eu ouvia eram as minhas passadas e uns uivos do lado direito. Duvido um pouco que a organização tenha colocado uns uivos artificiais por ali, rs. Se foi isso, foi uma boa ideia, tenho que admitir.
Acabou depois de 1km ou 1.5km. A trilha virou para a esquerda e abriu para uma clareira verde. Gramado lindo. “Vai dar para correr lindo”, eu pensei.
Novamente, charco. Difícil. Pesado. Barro preto.
Meu relógio marcou 45km e me lembrei de uma fala do Nazário no congresso:
     “Quando chegarem nos últimos 2 ou 3 km vocês verão sinais de civilização. Uma cerca, um cavalo. Então se virem isso saibam, vocês estão chegando”.
Eu guardei isso na minha cabeça, mas sei que corredor tem um troço. Sabe contar km como ninguém, mas de vez em quando diz assim “2 ou 3 km” e nunca é. Nunca.
Com 45km, do meu lado direito, vi o que um dia foi uma cerca. Hoje não cercava nada. Algum dia cercou alguma coisa. Hoje havia só 2 metros de cerca, mas aquilo era civilização. 45k. Estou chegando.
De repente a trilha começou a mudar. Passou a ser uma terra batida. Ainda com muito mato e árvores. O barro passou a ser de cor marrom ou vermelho. Era um barro desses que estamos mais acostumados a ver.
Outra cerca, e essa não estava do lado da trilha. Ela impedia a passagem fechando o caminho. O próximo ponto azul estava do lado de lá da cerca. Eu procurei a abertura, achei. Dava para abrir, mas era mais força do que eu tinha. Então eu resolvi do jeito simples, pular a cerca e continuar.
Eu sabia. Civilização significava que eu estava chegando, mas eu também sabia que não eram só 2 ou 3km. Foi então que ouvi cães latindo. Cachorros. Civilização.
Nas pegadas de tênis de corrida na trilha eu comecei a ver marcas de ferradura.
Os latidos aumentavam. Eles estavam onde eu estava, mas eu não os via. Eles deveriam estar numa posição mais alta que eu. De repente, não mais que de repente... Na minha frente, 3 ou 4 cavalos. Cavalos. Cachorros. Civilização. “Eu estou chegando”.
Voltou a trilha de terra batida e meu pensamento dizia “tem que abrir a mata. Na hora que abrir vem um gramado, atravessa o rio e chega na Estância Perales, que é o fim da minha prova”. “Eu estou chegando”.
Mas, apesar da expectativa, de repente, não mais que de repente, a trilha abriu. As árvores sumiram. Eu vi um vasto campo verde e agora eu apostaria qualquer coisa, que não teria charco. Uns 2 minutos à minha frente corria um dos competidores. Todo de preto com a mochila com detalhes em amarelo. Foi incrível porque ele estava correndo e eu estava correndo. Eu levantei os meus olhos e vi casas, construções. “Estância Perales, é o fim da minha prova”.
Calculei a distância e ainda teria uns 2km pela frente, mas era o fim da minha prova.
Agora sim, grama. Trilha de terra batida. Eu comecei a perseguir o corredor da frente. Eu sabia que não o alcançaria, e, naquele momento, tanto fazia se o alcançasse ou não. Reparei que atrás de mim vinham dois corredores. Não tenho certeza se eram aqueles dois brasileiros com quem encontrei no último PC ou se alguma outra dupla que passou por eles. E na minha cabeça eu não queria eles me ultrapassassem. Então era essa perseguição de todos contra todos. Até que a chave virou na minha cabeça. “Eu não estou competindo nem com o cara da frente nem com a dupla de trás, não estamos competindo. Eu estou competindo comigo. Estou vencendo a minha maior distância, a minha primeira ultramaratona. Eu estou vencendo o que eu imaginei que poderia ser”.
Deu para perceber o rio se formando do meu lado esquerdo até uma hora que a trilha abriu para o lado direito. “Se vai abrir para a direita é para encontrar o rio de frente e não mais correr ao lado dele”. Sobe um pouco, desce um pouco. Grama. Trilha. Margaridas brancas e amarelas.
Não teria como ter uma legenda melhor para um fim de prova.
Ouvi o corredor da frente atravessando o rio. Virei para a esquerda e vi o rio. Do outro lado, dois homens e uma mulher. A mulher era fotógrafa. Ela clicava os competidores ao passarem pelo rio.
Eu atravessei. Tomara que a foto tenha ficado boa. A água era deliciosamente gelada. Crioterapia natural. Lavou todo o barro da minha calça, meias e tênis. Os três me cumprimentaram “está chegando, está acabando”.
Coisa de 300 ou 400 metros depois do rio, bandeiras da Ultra Fiord. Cruzei uma ponte de madeira para entrar na Estância Perales e cruzar o pórtico. No mesmo momento em que meu GPS marcou a linda marca de 50km.
Eu imaginei mil vezes antes e outras mil durante a prova como seria passar esse pórtico, se eu conseguisse chegar até ele. Eu iria chorar, sorrir, gritar, ajoelhar?
Passei por debaixo do pórtico e cerrei os meus punhos. Não chorei. Não sorri. Não me ajoelhei.
Pessoas que estavam por ali aplaudiram e parabenizaram. Em espanhol, inglês e português até. Logo em seguida havia uma barraca da organização com suprimentos. Peguei dois pães. Abri um deles no meio, preenchi com ovos fritos e comi. Nossa, que delícia. Sei que ovos fazem bem após a corrida. Proteína. O segundo pão tomei com café. Mesma coisa. Água quente, pó instantâneo e açúcar.
Peguei a minha Final Bag (uma sacola que o corredor poderia deixar preparada com roupas, comida, dinheiro, o que quer que fosse). Perguntei onde havia um banheiro e fui me trocar. Era um banheirinho bem forreca, bem beira de estrada, exceto que não tinha estrada por ali. Mas dane-se, eu tinha uma missão maior. Tirar toda a minha roupa molhada e colocar uma roupa quente. Nunca doeu tanto fazer isso. Tirar os tênis, meias, calça. Credo. Colocar as outras roupas. Levantar os joelhos. As meias novas, gente. Como doeu. Quantas vezes eu desisti de pôr essas meias, rs. Doía demais. Doía tudo. Me troquei e voltei lá para frente.
Eu estava sem medalha e perguntei para alguém “e a medalha”? “Ali na van, ao lado do pórtico, você tem que levar o chip”.
O chip estava no tênis, lá no fundo da sacola, rs. Encostei na van.
     “Oi, eu não peguei minha medalha”.
     “Sim, preciso do chip”.
Me ajoelhei no chão e comecei a tirar tudo da sacola. Tirei e a moça comentou.
     “É bonito, né? O lugar onde se corre”.
     “É incrível. É indescritível”.
     “Aquilo não é uma trilha. As pessoas não passam lá. Só passa lá quem correu”.
     “Eu fiquei imaginando isso. Não é uma trilha. Quantas pessoas no mundo tiveram a oportunidade de passar ali? Pouquíssimas. Apenas os corredores e algum maluco que se aventurou algum dia”.
Entreguei o chip. Ainda ajoelhado. O chip estava amarrado no cadarço que, por final, desamarrou duas vezes cada um. Meu tênis também não resistiu. O pé esquerdo abriu o bico. Literalmente. Foi a última prova dele.
A moça, sem cerimônia alguma, deu a medalhe na minha mão. De joelhos a recebi. Peguei e pensei “moça, você não sabe o valor que essa medalha tem para mim”. Pus no bolso, guardei tudo de volta na sacola, voltei para Estância para ficar aquecido, pus minhas coisas ao lado da lareira. É um restaurante pequeno, beira de estrada sem estrada.
Peguei a minha medalha. Pesei a medalha. Por uns segundos, todos os momentos que eu acabei de relatar, fora os que eu esqueci ou os que não entraram para essa história, passaram pela minha cabeça. Pus a medalha no meu pescoço, que é onde ela deveria estar.
Me alimentei e tomei água. Tentei ligar o sinal do celular para avisar que havia chegado, mas não tinha sinal nenhum no meio do nada.
Esperei três horas para a saída do barco. Ele ficou esperando até mais corredores chegarem. Disseram que a viagem levaria uma hora. No meio do caminho, testei o celular e, vergonhosamente, havia algum sinal. Pouco, bem pouco. Mas tinha sinal. Enviei um SMS. Não escrevi “Feito”, ou “Terminei”, ou “Consegui”. Escrevi “Ultra”.
Terminei a minha prova às 19:23. Fiz a prova em 10h33m. 50k.
Demorei a viagem de navio, que me deixou numa cidade perto de Puerto Natales, de lá peguei um ônibus da organização, que me deixou no local do ônibus do começo do dia. Peguei um taxi por ali e cheguei ao hotel depois da meia noite.








Meu nome é Francisco Avelino.
Eu tenho 35 anos e sou ultramaratonista.
Ultramaratonista amador. Mais amador que ultramaratonista.
Esse foi o relato da prova mais difícil que já vivi.
O percurso mais difícil que eu já venci.
O adversário mais difícil.


Corra por dentro.





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