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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Relato: Mountain Do do Fim do Mundo - Ushuaia 21km

Depois da introdução ao relato, vamos ao relato em si:


Quase não tá frio! Bora meter várias camadas de roupa! rs
Todo pimpão e combinandinho, no maior EuroStyle

06 de abril de 2014, 9h40 da manhã, frio de rachar (só de respirar saía vapor pelo nariz! rs), o apito da locomotiva do Trem do Fim do Mundo soou anunciando a largada, o Locutor Maquininha gritou, os helicópteros deram rasante sobre nós e a prova começou!




Comecei lado a lado com a Cris e encaramos os metros iniciais (em subida) de forma bem conservadora e tentando assimilar que finalmente estávamos no Ushuaia e para correr 21km! O frio, as paisagens, os dois helicópteros dando rasantes sobre os corredores e filmando/fotografando, deixavam tudo meio que surreal, dando à prova uma cara de El Cruce de los Andes ou outra prova de grande porte.





Mantivemos um pace bem confortável nesse início e antes de completarmos 2km de prova pegamos uma subida um pouco mais longa e íngreme (embora não fosse estreita ou técnica) e acabamos nos separando, cada um adotando o seu ritmo de prova. Na sequência, o percurso teve uma leve descida e entrou novamente num estradão de terra batida, relativamente plano, rumo ao Parque Nacional Tierra del Fuego.



No caminho para a portaria do Parque encontrei o Ale, da JVM, e seguimos juntos por alguns quilômetros, cada um no seu ritmo e cada um preocupado com a sua lesão (rs), trocando algumas frases rápidas e ofegantes até que os percursos de 21km e 42km se separaram (no briefing disseram que isso ocorreria no km7, mas no meu Garmin mal havia passado dos 5km - meu cansaço dizia que já estávamos no km 18, mais ou menos! rs).




Nessa parte, os meia maratonistas viraram à direita, entrando numa trilha razoavelmente larga e em aclive (chamada de Pampa Alta), enquanto os maratonistas seguiram reto na estrada.
Ali a prova finalmente começou a ficar com cara de prova de montanha: trilhas, lama, charcos, aclives e bosques!



Passei pelo meio mesmo e nem tchuns...

Aproveitei que o povo estava caminhando na trilha em single track à minha frente e tirei a mochila de hidratação para poder retirar uma das jaquetas, pois, com medo do frio, eu acabei largando com 3 camadas de roupa (segunda pele de compressão e duas jaquetas corta-vento) e estava começando a passar 'calor'.

Saindo do bosque a vegetação passou a ser rasteira e o single track teve algumas dezenas de metros de 'mão dupla' (o que me assustou um pouco no início, pois vendo as pessoas vindo na "contramão" eu comecei a achar que eu tinha errado o caminho! É aquela coisa, né, cachorro picado de cobra tem medo de linguiça! rs).

Este foi o ponto mais bonito de todo o percurso, na minha opinião. Era possível ver montanhas com os picos nevados, cursos d'água, bosques com as folhas alaranjadas, enfim, lindo demais!

Quem liga pra dor quando se tem essa vista?!

Tá curtindo, Cris? Ôh!
Dali íamos até uma bandeirinha amarela, fazíamos o retorno e voltávamos alguns metros pela trilha que havíamos usado para subir - desviando dos corredores que vinham atrás -, até que um staff nos indicava uma nova trilha para descermos de volta à estrada.
Essa seria a parte mais gostosa da prova. A descida, embora com algumas raízes, era bem pouco técnica, com terreno macio e muito fácil de se correr.

Desci esse single track num grupinho de uns 4 corredores e em certo momento assumi a liderança do grupo. Nessa hora tive que redobrar a atenção para tentar seguir a trilha (marcada de tantos em tantos metros com um pequeno pedaço de madeira pintado de amarelo) e não me perder (e levar os outros comigo)! Maior responsabilidade! rsrs



Infelizmente, justamente nessa parte do percurso - a parte mais gostosa de toda a prova - eu comecei a sentir os efeitos da falta de preparo físico... Graças a todos os meses que passei em repouso e sem fazer o fortalecimento adequado, estava com as pernas bem fracas... sem os músculos para absorver o impacto das passadas na estrada dura e nas descidas saltando sobre troncos e raízes, comecei a sentir fortes dores nos joelhos e na região onde as bandas iliotibiais esquerda e direita pareciam raspar no osso.

O incômodo era tão grande que, assim que voltamos às estradas planas, não conseguia manter um ritmo constante de corrida. Meu pace caiu para algo em torno de 6:40/km no plano!!! Eu estava me arrastando! Todas as pessoas que eu havia ultrapassado ao longo da trilha começaram a me ultrapassar de volta... mas o pior mesmo eram as descidas. Eu não conseguia nem mesmo trotar ladeira abaixo... eu tinha que parar para caminhar nas descidas mais longas, pois tinha a impressão que meus joelhos iam travar... sensação horrível.




O percurso teve mais uma voltinha estilo out-and-back (ou vai e volta pelo mesmo caminho), num local bem bonito, margeando o Rio Pipo, e ainda cruzei com a Cris durante a volta!

O que é um pontinho verde limão na estrada do fim do mundo? A Cris! 


Minhas pernas começaram a ficar cada vez mais duras e pesadas e eu já estava considerando caminhar no plano (!!!) quando uma voz ao meu lado perguntou sobre a minha câmera. Respondi, perguntei sobre a câmera dele, emendamos um assunto no outro e, quando vi, já estava correndo ao lado dele por quase 3km, e em ritmo constante!
Não fosse o Márcio, do Paraná, eu teria sofrido bem mais para atravessar esses quilômetros finais da prova, com toda a certeza! Valeu pela força, amigo!

Papo vai, papo vem, até esqueci da dor por alguns quilômetros

Pois bem, corremos juntos até mais ou menos a placa do km 19 (que no meu Garmin dava mais ou menos 17km) e quando veio a última subida da prova nem o bate-papo mais animado conseguiu me distrair das dores que eu sentia na região dos joelhos. Agradeci ao Márcio pela companhia e disse a ele que ia ficar por ali mesmo. Comecei a alternar caminhada e trote curtinho e percebi que sentia menos dores se trotasse.
Do alto da ladeira já era possível ver a arena e a linha de chegada, bem como era possível escutar o Maquininha parabenizando todos os corredores que concluíam a prova. Faltava pouco!! Era só descer mais uns 400m e correr mais 1km em leve aclive!

Quem disse que eu consegui correr esses 400m em descida?! Tive que parar para andar... só quando voltei à estrada de terra em leve aclive é que consegui encaixar um trotinho novamente (na casa dos 7min/km! rs).
Eu estava com muita dor e, embora estivesse bastante grato por ter conseguido correr e ter aguentado o tranco até ali sem sentir dores na área das minhas lesões (tíbias), eu não estava mais me divertindo...

Cabeça baixa, cara de dor, sem nem olhar para o relógio... Calma, Gabriel, não precisa mais chorar. Agora acabou!

Cruzei a linha de chegada com bastante sofrimento e cara de choro! rs
Fui para a tenda do pós prova comer e beber alguma coisa e uns 6 minutos depois a Cris apareceu, igualmente com cara de choro! rsrs Se eu soubesse que estávamos tão perto um do outro, teria a aguardado para cruzarmos a linha de chegada juntos.




Claro que eu não fui para lá com expectativa de tempo ou performance. Dadas todas as condições, eu só esperava mesmo concluir a prova sem agravar minhas lesões. Mas quando a gente acaba de correr começam a aparecer na nossa cabeça diversas hipóteses ("se eu tivesse feito isso ou aquilo; se eu tivesse conseguido treinar; se eu tivesse feito um bom fortalecimento muscular; se; se; se;")... enfim, no final, a prova não foi nada técnica, teve muito pouca variação de altimetria (nem 400m de desnível positivo acumulado), teve estradas DEMAIS para uma prova de montanha e o público, de uma forma geral, não era composto por muitos Montanheiros - com "M" maiúsculo mesmo - já que muitas pessoas paravam para andar nas descidas que tinham raízes, ou para passar sobre os troncos e pedras ou mesmo para atravessar as pequenas partes onde havia lama... o que significa que "se bla bla bla bla" eu poderia ter ido muito melhor na prova e obtido uma posição melhor na classificação.

Mas, sinceramente, quem se importa?! O que importa é que fomos até o Fim do Mundo, corremos e sobrevivemos para contar a história!

Sofrendo, mas felizes!


De toda essa história que eu contei, vocês podem tirar três lições:

I - qualquer pessoa pode correr 21km, mesmo sem treino algum;

II - não é muito divertido correr 21km sem ter treinado para essa distância;

III - Como eu já havia dito no Guia Se Ela Corre Eu Corro de Sobrevivência em Trail Running, o bate-papo durante as provas tem um efeito anestésico muito importante! rs

É isso!
Agora é focar na recuperação (DE NOVO) e, se tudo der certo, começar a treinar para os próximos desafios.

Deu até calor! (e depois dessa foto eu peguei uma gripe da p#rr@! kkkk)

JVM representando nos 10, 21 e 42km do Mountain Do Fim do Mundo!


2 comentários:

Márcio Pettras Gugelmin Arruda disse...

Parabéns pela superação nos momentos difíceis da prova. Um belíssimo post!

Gabriel C. disse...

Obrigado pela visita! E parabéns pela prova também!