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terça-feira, 23 de maio de 2017

Relato: Short Misión Brasil


Sabe aquela frase "se você quer fazer Deus rir, conte a ele os seus planos"?

Ou se preferir em forma de desenho:

Esse poderia ser o resumo do Short Misión Brasil para mim.



Maaaassss, qual seria a graça da vida se todos os detalhes dos nossos planos fossem sempre seguidos à risca, não é mesmo? Como já dizia o Barão de Itararé, "tudo seria fácil, se não fossem as dificuldades"! hahaha

No começo do ano eu estava checando o calendário de provas da AdventureMag procurando algo que me desafiasse, algo que  me motivasse a voltar a madrugar todo final de semana para treinar, enfim, algo que me assustasse.

E aí apareceu o Short Misión - que por si só já tiraria meu sono - com o diferencial de a largada ser às 22h da noite, o que significaria que atravessaríamos a madrugada "correndo".

Sempre tive a vontade de correr uma prova assim, mas imaginava que só teria a oportunidade de atravessar a noite em atividade se corresse uma prova realmente longa (100-160km), o que ainda vai levar uns anos para acontecer.

Logo, somando o local da prova com a possibilidade de correr madrugada adentro, eu fui fortemente fisgado - e tratei de convencer a Cris de que a gente tinha condições de encarar esse desafio.

Fizemos a inscrição para a prova em janeiro e começamos a nos preparar, de forma gradual e consciente, para não corrermos o risco de chegarmos para a prova com alguma tendinite ou coisa do tipo.

Contudo, apesar de todas as precauções, durante um reconhecimento à Serra Fina, enfiei o pé num buraco e rompi parcialmente dois ligamentos do tornozelo. Faltando 5 semanas para a prova!

Fui forçado a ficar em repouso por 4 semanas. Acabou não sendo repouso absoluto, como os últimos dois relatos de prova nos mostram, mas mesmo assim foram 4 semanas sem efetivamente correr e na semana anterior à Short fui liberado para tentar correr sem a tala (foram duas tentativas de 4km cada, com bastante sofrimento e sobrecarregando fortemente a perna boa).

Em todo caso, como o percurso seria muito travado, eu estava confiante de que seria possível participar do evento pelo menos caminhando, já que o tempo de corte havia sido calculado de forma a que os trekkeiros também pudessem participar da prova.

Conforme o tempo foi passando, a expectativa de encarar a Serra Fina e a Pedra da Mina de madrugada foi nos deixando cada vez mais ansiosos - como era de se esperar!

E então, na semana da prova as águas de maio resolveram fechar o verão. Ops!
Pois é... em plena temporada de montanha, teoricamente marcada pela estiagem, a chuva caiu com força na Serra Fina.

Na sexta pela manhã já começamos a ouvir boatos de que a prova poderia ser cancelada. Por sorte (sorte nada, competência mesmo!), a organização já tinha uma carta na manga e apresentou um plano B durante o congresso técnico.

A frustração de todos foi tremenda, já que o plano B deixaria a Pedra da Mina e o Capim Amarelo de fora do percurso e contaria com uma grande parcela de estradão.

Por outro lado, o simples fato de a prova não ter sido cancelada foi um grande alívio!

Percurso e Altimetria originais

Percurso e Altimetria do Plano B


Claro que todo o planejamento que todos tinham feito foi por água abaixo, mas isso faz parte. Como dizem, é a montanha que manda - e quem tem juízo obedece.

Da minha parte, além da frustração que todos sentiam, havia ainda a questão de o percurso ser bem mais corrível. Eu não estava preparado para correr tanto tempo com o tornozelo ainda em recuperação - sem contar que um mês de repouso acaba com o condicionamento de qualquer mortal!

A checagem de equipamentos obrigatória foi bem rigorosa (o que acho correto) e o kit de prova foi bem aguado, com uma camiseta (gigantesca) e o número de peito. Só. Nem pra vir um alfajorzinho direto da Argentina, pô! hahaha

Retirados os kits, fomos para nosso QG (Hostel da Carioca - recomendadíssimo) com a intenção de dormir até umas 10h e depois ir para o centro para assistir a largada do Mini Short (30km).

Mais um plano que falhou: acordei às 7h00, pilhado! rs



Às 11h fomos ao centro, ficamos por ali papeando. O clima estava bem gostoso. Ao invés da imensa Tensão Pré Prova que era esperada, o clima era de confraternização, como se a mudança de percurso tivesse transformado a prova em um treinão!

Hidratando e checando a meteorologia


Galera do interior de SP

Turma do PR
Após a largada da turma dos 30km, fomos almoçar e então voltamos para a pousada com o intuito de tirar um cochilo à tarde... mais um plano frustrado para mim. Enquanto a galera dormia, lá estava eu de olhos esbugalhados ouvindo o rádio da vizinha tocando qualquer coisa entre Sampa Crew e Zé Ramalho (passando por Michael Jackson e pagodes dos anos 90 que repetem "aiaiaiai" umas 15x por estrofe)!

Depois que todo mundo acordou, começamos a arrumar as malas e - PQP - que mala pesada!

Jantamos uma pizza e nos dirigimos ao centro, onde chegamos faltando 30 minutos para a largada.




Parte do "Hostel da Carioca Trail Team"
Tiramos as últimas fotos com a turma reunida e em breve começou a contagem regressiva. Ao chegar ao zero, toda a tensão se desfez. Agora não tinha mais volta. Era só curtir o momento e colocar um pé na frente do outro pelos próximos 50 e tantos quilômetros.

O carro madrinha foi guiando os corredores pelo centro de Passa Quatro e então cruzamos uma passarela de pedestres sobre o Rio Passa Quatro e atravessamos a rodovia para pegarmos a primeira interminável subida do percurso.

Até chegarmos a essa primeira subida, em estrada de terra, eu estava muito apreensivo, com medo de torcer o pé no paralelepípedo da cidade. Fomos lado a lado eu, a Cris e o Diego pelo primeiro quilômetro e assim que a subida começou eu me senti mais confiante e apertei um pouco o passo.
A Cris ficou para trás e o Diego me acompanhou por mais um quilômetro.

O engraçado de correr à noite é que todo mundo "fica macho" na subida. Como ninguém enxerga onde a subida termina, é normal que as pessoas acabem tentando trotar em inclinações que normalmente seriam andadas.

Percebi que também estava cometendo esse engano por volta do km 3 e tirei o pé do acelerador, afinal, seriam 8km até a Casa de Pedra, subindo nada menos do que 800m! E da Casa de Pedra em diante, já dentro da trilha, seriam mais 1,5-2km subindo 350m. Ou seja, não tinha porque queimar cartucho logo no começo.

Ao longo da subida fui conversando com muitos amigos (Max, Victor, Fábio, Rafael, Rodolfo, Ricardo e mais um monte de gente). Era difícil identificar, já que todo mundo estava de camiseta vermelha, legging preta e um capacete enorme na cabeça! rsrs

Cheguei à Casa de Pedra com 1h20, informei meu número ao staff e desci todo pimpão pelo gramado. Poucos metros depois, minha alegria se transformou em pânico. Enfiei o pé direito num buraco escondido pela grama recém aparada e torci o pé lesionado!

Entrei em parafuso repetindo para mim mesmo que agora eu tinha rompido de vez os ligamentos e que não tinha mais volta, que minha prova estava acabada e teria de ficar o resto do ano em recuperação.

Então respirei fundo e tratei de me acalmar para poder avaliar melhor a situação. Sim, estava doendo. Mas não tanto quanto havia doído no dia em que me lesionei. Conseguia movimentar o pé normalmente e sem aumentar a dor. Assim, prossegui com cautela até achar uma pedra na trilha onde eu pudesse me sentar sem atrapalhar o tráfego.

Tirei o tênis (o pé não estava inchado e nem tinha mudado de cor) e coloquei uma tornozeleira de neoprene que estava carregando na mochila. Terminei de subir o escorregadio singletrack até o cume do Campo do Muro, onde finalmente parei de sofrer com o calor (larguei usando a segunda pele e a calça legging que faziam parte dos equipamentos obrigatórios e estava praticamente cozinhando no meu próprio vapor).

Alcançado o cume, fomos brindados por uma leve neblina para dificultar mais um pouco a inclemente descida até a estrada do Paiolinho. Nessa descida eu estava um verdadeiro pato, ainda traumatizado com a torção recém ocorrida.

Em razão disso, travei muito o movimento para descer e as contrações excêntricas destruíram meus quadríceps antes mesmo de atingir 15km de prova. A noite prometia altas emoções!

E por falar em emoções, eu tentava a todo instante tirar da mente o fato de que na altura do km 40 a gente teria que subir tudo aquilo que havíamos acabado de descer, que era basicamente um muro (talvez seja por isso que se chama Campo do Muro), sem nenhum zigzag para atenuar a inclinação!

Passei por mais um checkpoint (o quarto ou quinto até ali) e peguei a estrada do Paiolinho, sentido Pedra da Mina. As pernas estavam destruídas e a partir dali seriam mais uns 25 a 30km de estradas, para o meu pavor.

Na altura do km 16 eu alcancei um corredor (Rafael, de BH) e, como estávamos trotando mais ou menos no mesmo ritmo, começamos a prosear. Uns 2km adiante, num novo checkpoint, encontramos o Victor sentado numa cadeira e reclamando de bastante dor nas costas e analisando se prosseguiria na prova ou se iria abandoná-la.

O staff nos informou de que teríamos um singletrack de aproximadamente 1km e então atravessaríamos o Rio Verde. Nessa descida o meu novo companheiro de prova acabou se distanciando um pouco de mim, já que eu continuava com receio de torcer o pé novamente, mas ao chegar ao rio consegui alcançá-lo outra vez.

Eu atravessando o Rio Verde. Legal né? rs
Aproveitei a água gelada para fazer uma pequena sessão de crioterapia e ao sair do rio fomos informados pelo staff que teríamos 10km de estrada até o próximo checkpoint. Apesar de já saber que teria muita estrada pela frente, ouvir isso foi como um balde de água fria e o desânimo bateu forte. A vontade era de andar o resto da prova, já que a musculatura estava bem comprometida (fruto de 30 dias de molho + sobrecarga típica de quem estava tentando poupar uma das pernas).

Dali pra frente eu e o Rafael seguimos fazendo um ioiô: um parava para fazer um xixi e o outro passava; depois um parava com ameaças de cãibras e o outro passava; e no meio tempo a gente trotava junto e trocava ideia.

Passados os 10km, chegamos a um novo checkpoint e ali foi um divisor de águas para mim. Ali aconteceu algo que alterou completamente a minha experiência na prova. Apesar de não termos falado nada em voz alta, estava claro que havíamos decidido fazer a prova em dupla pelos próximos quilômetros.

Fomos trotando e conversando, andando e conversando, trotando mais um pouco e conversando. Quando um desanimava, o outro incentivava. Por exemplo, quando o Rafael percebia que eu estava de frescura ele dizia "deu frio...vamos trotar um pouco pra esquentar?". hahaha

E assim chegamos ao checkpoint onde pediram para que comprovássemos que estávamos carregando o anorak e cobertor de emergência. Dali seriam só mais uns 5 ou 6km até entrarmos novamente na trilha pro Campo do Muro.

Mais ou menos por ali, fomos ultrapassados pela Fabiana, a terceira colocada no feminino, e ela estava voando ladeira acima (em pouco tempo a luzinha dela já havia sumido do horizonte!).

Um pouquinho antes da entrada da trilha, por volta do km 38, procurando a marcação refletiva, olhei para a direita e vi uma série de pontinhos luminosos azuis. Sem titubear, pegamos a trilha à direita, subindo por uma tobogã de lama bem amassada e demos de cara com o Pedro, que estava passando mal do estômago e sem saber se continuava ou se voltava até o checkpoint para abandonar a prova.

Falamos para ele vir conosco, pois estávamos em ritmo lento. Alguns metros adiante constatamos que os pontos luminosos azuis não eram a marcação da prova, mas sim os olhos de alguns bois! rs

Toca descer tudo de novo e achar a trilha certa, após uns 20 minutos. E nessa perdemos umas boas posições. Até então estávamos correndo praticamente sozinhos, mas assim que achamos a trilha certa, demos de cara com um grande grupo de corredores.

Apesar de não estarmos em "modo competitivo", bateu um certo desânimo... mas fazer o que, né? De repente a gente só se perdeu pra poder ajudar o Pedro! Vai saber! rs

Mas se esse erro teve um propósito, o próximo foi totalmente gratuito. Ainda não consegui entender como, mas erramos a trilha de novo e começamos a subir uma encosta bem íngreme e varando mato!
Depois de uns minutos olhei o mapa no meu relógio e percebi que estávamos à direita da trilha por onde havíamos descido umas 4 horas antes, paralelos a ela. Tivemos de pular uma cerca e então vimos todas as marcações refletivas.

Essa subida, como eu já sabia desde a hora em que tinha terminado de descer o morro, horas atrás, foi um verdadeiro martírio. Eu praticamente conseguia ouvir a Cris xingando quando ela passasse por lá! rs

Nesse momento, por volta das 5 horas da manhã, pensei nos meus amigos e em toda a energia positiva que eles haviam mandado para a Cris e para mim.
E logicamente também pensei algo como "nessa hora eles estão quentinhos e dormindo, e não aqui morrendo de dores e sofrendo numa subida sem fim! Por que diabos a gente escolhe fazer esse tipo de prova? Vai demorar muito tempo para eu querer fazer uma prova acima de 21km de novo. Pelamordedeus não tem 5m de plano para eu descansar as pernas?!". hahaha

Depois de quase 2 horas, finalmente atingimos o cume do Campo do Muro pela segunda vez, juntamente com o nascer do sol! Dali pra frente era só descer 2km de singletrack escorregadio até a Casa de Pedra e mais 8km de estrada de terra até o centro.


Not bad!



Grande Rafael! Sem sua parceria a prova seria ainda mais sofrida!
Já dava pra sentir o cheiro da chegada! Faltava umas 2 horas para colocar os pés lá, mas depois de tanto tempo em atividade, 2h não era nada! rs

Parei pra colocar colocar o Buff no pescoço e acabei me separando do Rafael, que seguiu descendo para se aquecer.

A trilha estava uma delícia, mas procurei não me empolgar com medo de ferrar o pé.

No caminho passei por mais amigos e quando cheguei à Casa de Pedra comecei a andar, para não enfiar o pé em um novo buraco. O staff que ali estava me disse algo como "não para não que você tá bem pra caramba!"e é claro que isso foi uma bela injeção de ânimo.

Entrei na estrada de terra e prometi a mim mesmo que só iria parar se estivesse com cãibras, pois, a essa altura, todas as outras dores do meu corpo já faziam parte de mim e eu nem mesmo ligava para elas.

Comecei a descer de forma conservadora e fui ultrapassado pelo Fábio e pelo Guilherme. Fui fazendo a contagem regressiva dos quilômetros e me animando cada vez mais.

Quando faltavam uns três ou quatro quilômetros para o centro da cidade, finalmente encontrei o Rafael outra vez.
Fiz umas contas e falei pra ele grudar em mim para tentarmos fechar a prova abaixo de 10h (claro que errei a conta, mas quem liga? rs). Ele disse que estava cansado daquela estrada e não se animou a embalar... mas eu tinha acabado de ver a igreja da cidade lá embaixo e criei a minha visão em túnel. Só aquela igreja interessava agora. Não iria parar nem se estivesse com cãibras. Apertei o passo e fui. Passei por mais alguns corredores (uns trotando e outros andando) e gritava a eles que viessem comigo, que agora faltava pouco.

A menos de 1km do final fui forçado a andar. Um cachorro saiu de uma casa próxima e avançou em minha direção com os pelos do dorso eriçados. Acredito que se eu não estivesse com o bastão de caminhada na mão, teria levado uma mordida, pois fiquei uns 20 segundos confrontando o cachorro e ele não se afastava. Ele só me deixou prosseguir quando alguém gritou por ele de dentro da casa.

A adrenalina subiu e eu apertei ainda mais o passo para chegar logo ao centro. Cruzei a rodovia, atravessei a passarela (estranhamente deu vontade de andar ali... não sei porque) e encontrei o Guilherme (amigo do Rafael) caminhando.

Falei pra ele vir comigo. Ele havia descido a estrada tão forte que não havia porque parar pra andar agora, tão perto do fim. Contornamos a praça da feira, cruzamos a linha férrea, viramos a esquina e lá estava o pórtico.

Aumentamos o passo - pero no mucho - e cruzamos o pórtico juntos, após 10h04 de prova. Misión cumplida!
Sensação de realização indescritível, ainda mais depois de tanta incerteza causada pela lesão no tornozelo um mês antes da prova.

Ao longo de toda a prova eu orava e mandava pensamentos positivos para a Cris e para todos os meus amigos que estavam na prova e pedia proteção para todos nós. Agora que eu já estava são e salvo, dediquei alguns minutos para pedir proteção a todos que ainda se encontravam no percurso.

Calculei que a Cris demoraria entre 1h30 e 2h para chegar e bingo! 1h31 depois lá estava ela, cruzando a linha de chegada daquela forma que ela sempre faz: me deixando arrepiado de emoção!

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Aos poucos os amigos foram chegando. Uns bem, outros sofrendo, mas todos com o sorriso de quem sabe que fez o seu melhor e não deixou a peteca cair apesar de todos os obstáculos.
E essa é a melhor sensação que há nesse tipo de prova (pegar a primeira colocação geral também deve ser uma sensação bem legal, mas eu me contento com a sensação descrita acima! hahaha)!

Parabéns à organização da prova. Percurso impecavelmente demarcado e - apesar de frustrante - a decisão alterar o percurso era mesmo a decisão mais prudente.
Impressionante como o "Plano B" dessa prova foi muito melhor organizado do que o "plano A" de muitas provas por aí. Isso mostra o nível de competência e comprometimento da organização.
No final, apesar de toda a previsão de chuva torrencial ao longo de toda a noite de sábado e de todo o domingo, fomos agraciados com céu estrelado por boa parte da noite e nenhuma gota de chuva!

Foi uma prova excelente e bastante exigente. Ficamos muito felizes de participar de algo deste nível e com certeza ficamos com vontade de voltar no futuro para fazer o percurso original!

#MisionCumplida, somos misioneros (short-misioneros, mas misioneros)!



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